Wednesday, July 22, 2009

primeiramente queria agradecer a todas as manifestações de apoio recebidas no último mês. a todos que se manifestaram também peço desculpas pelo longo silêncio - além da minha tradicional lentidão com a internet soma-se a minha itinerância em locais não plugados no último mês e também ao meu direito a reflexão sobre o episódio para que as minhas palavras não nos fizessem perder o que temos de mais importante: a razão.


então segue abaixo o meu comentário sobre o (triste) episódio da apreensão de 16 exemplares do meu livro "Descaminhar".


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"Personalidades autoritárias temem que a ameaça não venha das idéias, e sim da emoção. Quem está no poder nunca quer que nós tenhamos sentimentos. O pensamento pode ser controlado e manipulado, mas a emoção é obstinada e imprevisível. Artistas ameaçam a autoridade expondo mentiras e inspirando a paixão pela mudança. É por isso que quando tiranos assumem o poder, seus pelotões de fuzilamento miram no coração do escritor".

(Robert McKee)

Para quem ainda não sabe o episódio:

Na Quinta-Feira, 02/07, estava trabalhando na FLIP, vendendo meu livro Descaminhar, no velho e prazeroso esquema de abordagem direta, olho no olho, mão em mão, quando fui alertado por um fiscal de que a FLIP havia solicitado à Prefeitura de Paraty que não permitisse que ninguém trabalhasse vendendo seus materiais na cidade, mesmo eu sendo um convidado da Off-Flip e mesmo o produto que eu estava ali divulgando sendo algo extremamente pertinente ao momento: um livro. No segundo momento, quando chamado por uma leitora que havia visto anteriormente o livro e estava interessada, fui novamente repreendido pelo fiscal que então tomou uma absurda atitude para o século XXI - Apreendeu os livros, escritos e produzidos por mim mesmo, dos quais eu sou único responsável e proprietario dos direitos autorais, sob o argumento de que eu estava "comercializando produtos sem autorização".

É importante ressaltar que eu em momento algum montei uma banca, uma barraca ou qualquer coisa do tipo - o que descaracterizaria qualquer dano patrimonial a cidade, desculpa oficial que surgiu dias depois da FLIP mas que sequer foi comentada durante a FLIP. Eu estava apenas divulgando de mão em mão, olho no olho, dentro do meu direito de ir e vir e de livre expressão artística. Eu não estava portando logotipo de nenhuma empresa, não estava vinculado a nenhuma instituição ou pessoa juridica e, portanto, esse ato não pode ser caracterizado como "ação comercial". A origem da poesia vem das ruas e praças, onde ela nasceu. No entanto, desde os tempos dos trovadores o artista precisa comer e ter onde dormir e, portanto, faz-se necessário dentro de um trabalho de divulgação a contrapartida financeira.

Diante de tal situação rumamos eu, Berimba de Jesus e Rodrigo Ciriaco para a Off-FLIP, que nos havia convidado, a fim de relatar o episódio. Quando conversamos com o Ovidio, ele nos informou que a FLIP já havia repreendido também algumas meninas que estavam divulgando folhetos da Off-FLIP e demonstrou grande preocupação com o fato. Na mesma tarde Rodrigo comunicou Marcelino Freire do ocorrido e nós também conversamos com a Lia, da Off-FLIP, que também se comprometeu a atuar no sentido de lutar pela liberação do nosso trabalho. Graças a um esforço conjunto de diversas pessoas, que procuraram a direção da FLIP e a imprensa, conseguimos finalmente chegar ao Sr. Didito, que nos informou "que a FLIP não queria ser caracterizada como um evento comercial, que não queriam que virasse uma feira." Explicamos a ele a natureza de nosso trabalho, que não estavamos montando barracas, o que descaracterizaria a "feira", que a literatura de rua é uma tradição antiga no Brasil, que mesmo Manuel Bandeira, homenageado da edição, editava e vendia os próprios livros e, após esta conversa, mesmo com relutância, ele acabou não apenas me autorizando a trabalhar, mas a todos os demais escritores de rua.

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O caso é que tal apreensão gera a necessidade de uma reflexão mais ampla sobre o momento cultural que o Brasil vive. Um país que luta para estabelecer uma cultura de leitores não pode abdicar jamais do trabalho dos muitos autores que tomam as ruas para divulgar a literatura. Estas pessoas, de vidas dificeis e que lutam para sobreviver com um minimo de dignidade, dedicam suas mais nobres e vitais energias para ultrapassar as dificeis barreiras impostas entre um autor e seu público. Ninguém fica milionário com isso (muito pelo contrário) e, na verdade, a maior parte dos autores de rua trabalham de segunda a segunda, faça chuva ou faça sol, e ainda por cima sofrem com a pecha de "vagabundos" e com um preconceito cada vez maior, inclusive do meio literário. Como se fossem uma espécie de "sub-literatura". O que, na verdade, esconde um argumento implicito de que só é "boa literatura" aquela literatura que é chancelada pelos meios oficiais. Se você não passou por um crivo editorial, se não tem um respaldo acadêmico, você passa a ser tachado como um "artista menor".

Esse preconceito chancela atitudes autoritárias como a que ocorreu na FLIP, como se o autor que vende o seu livro na rua fosse um mero camelô, vendendo produtos contrabandeados sem recolhimento de impostos. Não é. Um autor que está divulgando sua obra tem um carater diferenciado por alguns motivos. Primeiro: é dono da obra em questão, seu único responsável e detentor dos direitos autorais. Segundo: seu "produto" foi produzido por ele, não foi tomado de ninguém e, portanto, é perfeitamente legítimo que ele possa comercializá-lo. Terceiro: o livro é um produto isento de tributação e, assim, quando ele faz sua venda olho-no-olho não está sonegando nenhum imposto. Quarto: a venda deste "produto" extremamente específico, de valor cultural, pode ser classificado como direito de expressão artística. Pois, quando o artista se depara com as MUITAS barreiras existentes entre ele e o público (que julgo desnecessário citar, pois creio que quase todos sabem das dificuldades de ser publicado e chegar às livrarias no Brasil), as vezes sua única saída é trabalhar com o relacionamento direto com o leitor. Ou seja, se um autor está na rua vendendo seus livros isto muitas vezes reflete uma falta de opções diante da sua necessidade de se expressar e ser lido. Pode-se até questionar eventualmente este caminho. Mas é indiscutível que é algo que deve ser respeitado.

Assim, vejo como necessário aproveitar esse momento para levarmos a uma reflexão, a fim de que se possa revalorizar esta difícil escola das ruas. Essa escola que olha no olho dos leitores, que percebe suas emoções refletidas nos olhos diante do livro, que masca pedras para cuspir flores. O público é também um validador possível para a literatura, não cabendo apenas aos meios tradicionais o poder de chancelar o que é ou não literatura. Até porque estes meios também são dinâmicos e o que antes era considerado bom pode amanhã ser ruim, ao sabor do gosto ou da teoria do momento. Assim, é legítimo legar ao leitor diretamente o direito de decidir o que lhe agrada ao não, independente de resenhas, indicações ou prêmios. Á Cesar o que é de Cesar.

Agora o que dizer a quem sustenta um evento que toma atitudes que deveriam ser sumariamente rechaçadas? Talvez que, assim, a FLIP NEM PARECE FESTA LITERÁRIA. Que NÃO FOI FEITA PARA VOCÊ e NEM ACREDITA NO MELHOR DO BRASIL. Enfim, é algo para se pensar.

Por favor, se você concordar com estas palavras, passe adiante. Não podemos nos calar diante disso.

Repercussões do Caso: (sabendo de mais alguma, me informe. dados by google)

http://www.ptostes.blogspot.com/
http://www.efeito-colateral.blogspot.com/
http://www.logorreia.com.br/
http://sobrecacosepontes.blogspot.com/
http://berimbadejesus.blogspot.com/
http://bethbraitalvim.blogspot.com/
http://flaviadurante.blogspot.com/
http://chacalog.zip.net/
http://photophophoka.livejournal.com/
http://outubro.blogspot.com/
http://otatubola.blogspot.com/
http://www.ube.org.br/lermais_materias.php?cd_materias=3271
http://www.marmitafilosofica.com/
http://www.ambrosia.com.br/ http://jbonline.terra.com.br/leiajb/noticias/2009/07/07/cultura/poetas_de_rua_barrados_na_festa_dos_livros_em_paraty.asp http://mnocelli.blog.uol.com.br/
http://associaodosblogueirosdesocupados.blogspot.com/
http://lysminhalma.zip.net

Abraços e saud-ações a todos,
Pedro Tostes
ptostes@hotmail.com
http://www.ptostes.blogspot.com/

5 comments:

joannes said...

Pois é Pedro , vivemos num país colônia, não descobrimos ainda o valor patrimonial que é o pensamento vivo, seus artistas, seus debates,
e oque podemos tirar do caso é exatamente o conceito de contra cultura assumida, contra corrente principalmente no que diz respeito ao ponto de partida filosófico diante do diálogo com os oficiais
abraço Joannes

Pedro Tostes said...

é joannes, triste o país que caga na cabeça dos seus artistas!!

abraços!

Dolfo said...

Fala Tostes,

Fiquei sabendo pela net do ocorrido. Sábio texto o teu. Agora se eu fosse você pegava um advogado e metia um processo na Prefeitura, pegava essa grana e lançava mais livros na goela deles.

Admiro vocês que continuam na luta. Eu estou de licença meu velho. Curti a Flip de 2008 pelas ruas, vendi mais uns livrinhos, masD depois de bater muita sola e saliva com o Acaso por aí enfiei o que sobrou na estante e estou trabalhando como a Administrador. Meu sonho é um dia poder ajudar a mudar as coisas estando também do outro lado.

Não desisti da poesia até pq ela não desiste da gente, você sabe. Os versos estão aqui sendo guardados na gaveta. Um dia quem sabe eu volto.

Mas tuas palavras tocam num ponto fundamental. Quem disse que as editoras e editores é que sabem o que é bom? São eles que devem definir que livros devem ser publicados e quais devem ser esquecidos? É óbvio que não.

Sempre que vejo um poeta na rua com seu livro embaixo do braço, com seus versos xerocados no chamex, fico admirado, pela coragem de seguir em frente, de ganhar pouco, caminhar muito, mas ser feliz ao extremo.

Um abração!

Rodolfo Muanis

carlos pessoa rosa said...

Olá pessoal, coloquei o link no meiotom 'boca na injustiça'. Vocês devem se lembrar ano passado a mesma truculência com o Coletivo Dulcinéia. Fato é que a Flip se transformou em tietagem, vide Tchico, sob coordenação das editoras, que colocaram seu dedinho na prefeitura, pegou mal ano passado a própria segurança da FLIP fazer o que fez. Não esperem nada de diferente, independentemente das possíveis explicações, a percepção de que a modernidade agoniza não passa por esse Brasil.

carlos pessoa rosa

BêbÉT/Ocica's said...

lugar de artista independente é em casa?

"Viaja poeta, na fome. Com a idéia de quem diz amar é porque não gasta, viaja, curte o marasmo como se ele fosse teu, a ti pertences, a ti darás. Aliado da insignificância e ruptura no chumaço de vidinha, “cansei-me de acordar sem respostas, desses sordidos sentimentos”

é a causa que nos faz mover montanhas, e a estrada que agora faz clareiras renasce ao sujo, ao classico paulistano, limpido e claro de que essa não é a nossa praia.

o que dizer do poeta Caco Pontes a esse país? se esse país ao menos soubesse quantos pontes viraram cacos, o que eles não sabem é que nós não vamos nos calar.

"to no fundo de minha alma
a vida é uma cavalaria que tem me arrastado sem companhia
suas falsas famílias,
ante atrevidas,
é a nossa melhor imagem que vem de nós,
a vereda já não apunha nossa vida
vamos andante...
é verdade mas só nós sabemos de onde viemos e para onde queremos ir."


poeta; esquece o amor e amarga a vida. Exclua-se de vez da sinceridade, a evidência com sua honra derruba alguém.

eh nois vei!
fazemos poesia!
a flip é administração de conceito que não vai chegar ao povo, seus cultos estão muito inerentes a palestras, sociologias, não sentem necessidade de viver, vontade de ter, pensar que um livro autônomo é crime e abuso, pra mim, é um caso que mostra a veracidade, não é CASUALIDADE isso, já estive nessa mierda, já vi que a guerra é além da minha escrita, e senti ali que naquele lugar não está minha literatura, "eu sou um burro metodico", preciso de vivacidade no meu ambiente, tenho minhas revistinhas aqui, e quero ver filha da puta pegar, acho que estou com um contrabando em casa senhores, “aprendei, e retornais”, porque a satisfação obrigada é um conjunto de sofrimento que só os inúteis e inofensivos guardam.

faremos então a feira urbana paulista de literatura embaixo de qualquer viaduto, e eles não trão conhecimento, desde que tenhamos nosso espaço. a inutilidade é um conjunto poetico.

olha eu vou parar porq o assunto não me acaba, eu sou da sociologia de favela, tem que pôr fogo nessas pestes...

abrax Pedro!

poesias sempre delaspontes

eu tô junto! e não é por esses almofadas...